A julgar pelos últimos concursos de beleza, especialmente os de Miss, chegará o dia em que se estará escolhendo não a mais bela e sim o melhor cirurgião plástico. Selecionar as beldades formatadas por bisturis é um forte indício de que os concursos de beleza estão em decadência e tendem ao fracasso total num futuro breve, justamente por abir mão de seu objetivo básico: destacar a beleza da obra da natureza – ou da formidável genética como preferem alguns - expressada num corpo de mulher. Um narizinho aqui, um silicone ali, um culote acolá e pronto! Lá se vai a originalidade e as proporções impressas pela natureza e, com isso, a noção do belo.
Todos temos um feitio, um detalhe que nos caracterizam diante de nós mesmos em frente ao espelho e nos diferenciam dos demais. Mexer neste detalhe pode nos tornar estranhos a nós mesmos. Este é o fator psicológico mais forte. Se sentir estranho diante do espelho e sentir falta de quem se era antes da cirurgia plástica, deve ser um vazio terrível. Olhar e não se reconhecer. Ver e não acreditar. Eis, a crise psicológica essencial. Por acaso o Everest seria o mesmo se dele se retirasse a imponência de seu pico? Gérard Depardieu, seria o mesmo se lhe retirassem metade do nariz? As características essenciais se concentram nos detalhes, justamente a parte que os bisturis procuram alterar. Retirar o destaque e tornar o belo padrão, nesse sentido, é um equivoco.
Bisturis serão sempre bem-vindos mas, para corrigir, consertar deformidades, aberrações, restaurar sequelas de acidentes, e até mesmo para repor a auto-estima perdida com a idade. Entretanto, formatar um novo rosto, criar por artifício o belo, descaracterizar personalidades, são ações que podem ter um preço alto aos incautos, pode ser o “castigo” sem volta para os imprudentes.
Costuma-se ouvir frequentemente que o conjunto da obra se sobrepõem a uma obra específica, que o todo é muito mais que a junção das partes, e experiências já comprovaram, que: juntar as partes mais belas num todo, nem sempre se tem um resultado harmônico. O belo, ou a bela, não pode ser o padrão, tem, necessariamente, de ser o destaque, e nisso a vontade da natureza é mais sábia que a vontade humana.